Acordou meio zonza, meio embriagada, meio do outro lado da cama e se deixou levantar. Naquele momento, não sabia nada sobre sua vida, apenas lembrava de existir. Foi ao banheiro, escovou os dentes, sentiu-se tonta e resolveu tomar alguns remédios e logo depois um banho. Como se os remédios fossem ajudar, eles só a faziam dormir e dormir a fazia lembrar e lembrar a fazia beber e beber a fazia esquecer de si própria. Desistiu dos remédios, abriu a armário e encontrou naquela garrafa a sua amiga de todas as horas. Acendeu um cigarro e ficou li, parada, olhando para o nada e lembrando de tudo que havia feito nos últimos meses. Nada, não havia feito nada.
Suas amigas tentavam dizer que dor de amor se resolve com o tempo, mas seu tempo nunca passava, ainda mais com essa vida que começava a levar, sem rumo, sem pessoas, sem histórias, apenas ela, o cigarro e a garrafa.
Vez ou outra assistia tv e como se não bastasse todo o mundo conspirando a favor de dar errado, os filmes que ali passavam só serviam para derrubar mais lágrimas, lembrar mais erros e beber mais. Havia se tornado alcoólatra, o amor faz isso com essas pessoas. Bom, na verdade o amor não faz isso a ninguém, mas a desilusão que ele causa faz e faz bem feito, faz por um bom tempo.
De copos em copos acabava adormecendo e acordando e dormindo de novo. Vida sem graça aquela, onde a única coisa que conseguia ficar na cabeça todo o tempo era ela, o jeito dela, a palavra dela, a sua voz, seu sorriso e as recordações mais belas que um ser humano pode deixar ao outro, mas no final, depois de lembrar das partes mágicas, vinha a parte ruim, a parte do final. Final, não há nada mais doloroso do que ele.
E ali ficava, bebendo, fumando, lembrando. Um dia não mais acordou e se sentiu bem ao ver seu amor lá do alto. Ah! Logo ela que nem em religião acreditava, acabara flutuando depois de seu último sonho. A vira pela última vez e por mais doloroso que foi, aquilo trouxe paz e lágrimas e uma vontade enorme de fumar e de pegar aquela garrafa no armário, mas lá do alto fica complicado. Então voltou, era apenas mais um sonho, acordou e num ato rápido até pensou em ligar, mandar uma mensagem, escrever uma carta, mas não... apenas pegou os cigarros, a garrafa e a solidão, foi até a varanda e ficou pensando, então adormeceu.

